[Resenha] A hora da estrela | Clarice Lispector

Oi pessoal, tudo bem?

Como vocês bem sabem, estou participando do Projeto Mindlin (clique aqui para saber mais) junto com a Nina e uma galera super legal. O primeiro livro que escolhemos para ler juntos foi o clássico brasileiro A hora da Estrela, da musa Clarice Lispector. Eu leio sempre esta obra, e sempre quando releio encontro algo de novo. Porém, eu nunca tive um exemplar meu, e por isso, nunca havia feito marcações. Mas agora que adquiri, o tanto de post-it que gastei neste livro não tá escrito, viu… haha.

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A hora da estrela (Rocco, 1998, 87 p.) da autora ucraniana, mas naturalizada brasileira (e sim, ela tinha muito orgulho disso!) Clarice Lispector, é uma novela lançada em 1977, na qual o narrador, Rodrigo S. M. conta-nos a história de uma moça que ele acabou por ver andando nas ruas, e enxergou em seus olhos, toda sua história. Essa moça é a Macabéa, ou Maca, para nós que acabamos ficando íntimos da personagem (ou ainda, como diz minha mãe: “Maca o que? Isso lá é nome de gente?”. Sim, ela teve a mesma reação de todo o mundo). Maca é alagoana, mas vai ao Rio de Janeiro em busca de oportunidades. Acaba por encontrar o emprego de datilógrafa, já que sua tia lhe ensinara alguma coisinha. Só come cachorro quente e toma Coca-Cola, mal fala e é virgem.

“Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – para que mais que isso? O seu viver é ralo.” (p. 23).

Rodrigo, durante a narrativa, também nos apresenta outros personagens, como o namorado de Maca, Olímpico de Jesus, um cabra pra lá de ignorante; Glória, a colega de trabalho de nossa protagonista; além de outros personagens “terciários”, como as colegas de quarto de Maca, que trabalham nas Lojas Americanas, a cartomante, e o patrão que acaba tendo um pouco de dó de sua funcionária que vive com dor de dente.

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Durante toda a narrativa, somos pegos de surpresa por umas frases de efeito. Não… Frases de efeito é um termo pobríssimo: o que são entregues a nós são indagações, alfinetadas, provocações das melhores. A própria personagem Macabéa já é uma provocação: uma personagem nada absorta pela vida. Não se questiona, não adentra o mistério de viver, não fica extasiada diante de nada. Simplesmente está, simplesmente é. Um dos sentidos da vida de nossa personagem estava em escutar a Rádio Relógio, “que dava ‘hora certa e cultura'” (p. 37). Para não ficar sem assunto, sem nada para pensar, acabava por prestar atenção em curiosidades bobas. E adorava os anúncios.

“(Ela me incomoda tanto que fiquei oco. Estou oco desta moça. E ela tanto mais me incomoda quanto menos reclama. Estou com raiva. Uma cólera de derrubar copos e pratos e quebrar vidraças. Como me vingar? Ou melhor, como me compensar? Já sei: amando meu cão que tem mais comida do que a moça. Por que ela não reage? Cadê um pouco de fibra? Não, ela é doce e obediente.)”. (p. 26)

O personagem Olímpico é bruto, chucro nas palavras e ações. Perde a paciência a todo instante com Macabéa. E o Rodrigo, o narrador – que considero quase um personagem -, me representa. Ele próprio tem vontade de dar uns chacoalhões em Maca, pedir, implorar a ela para acordar para a vida. Mas também faz uma autorreflexão, como esta:

“Pensando bem: quem não é um acaso na vida? Quanto a mim, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato. É quando entro em contato com forças interiores minhas, encontro através de mim o vosso Deus. Para que escrevo? E eu sei? Sei não. Sim, é verdade, às vezes também penso que eu não sou eu, pareço pertencer a uma galáxia longínqua de tão estranho que sou de mim. Sou eu? Espanto-me com o meu encontro” (p. 36/7).

No início do livro, Clarice deixa ao leitor os possíveis títulos para sua obra. Se não fosse “A hora da estrela”, qual título nós daríamos?

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Esta foi uma questão que acabou entrando em “discussão” no nosso grupo de leitura, do Projeto Mindlin. E não, não conseguimos chegar a uma conclusão.

Outro assunto que entrou em discussão no grupo, e que achei muito pertinente foi: Quantas Macabéas nós conhecemos, em nossa vida real? E o que fazemos para tirá-las do marasmo? Nós realmente nos importamos com essas pessoas tão apáticas em viver? Ou nós temos preguiça, medo de nos envolver demais? E por que então nós só olhamos de longe, reclamando e sendo hipócritas em acusar o outro de não saber viver?

O sentimento que temos ao ler o livro, e acompanhar Maca é de desalento. Ficamos incomodados com a não-vida da personagem, e dá uma vontade imensa de não ser como ela. E fico me perguntando: se esse incômodo acontece, será que não há uma partícula dessa não existência em mim? Será que eu realmente vivo? Vivo, do modo mais literal que essa palavra possa significar? Ou somente existo?

Se quiser assistir a entrevista completa, ela está disponível no YouTube. Clique aqui.

Eu gostaria de ficar eternamente falando do quanto amo esta obra. Mas irei finalizar com uma citação que achei belíssima, retirada de um texto de apoio que me foi enviado pela Rê (do blog Mergulhando em Letras). Ela também faz parte de nosso grupo, e leu A hora da estrela em outra edição, pela extinta editora Francisco Alves. Por sinal, este texto de apoio é incrível, e também estou com vontade de mostrar tudo para vocês. Foi escrito pela professora de Literatura Brasileira da PUC do Rio de Janeiro, Clarisse Fukelman.

“O leitor é levado a apreender as coisas por dentro e o narrador, tentando traduzi-las assim, chega ao paradoxo de converter o silêncio em seu alvo-limite, pois seria a forma mais direta e concreta de atingir a plenitude do sentido das coisas: o silêncio neutralizaria os ruídos que impedem uma visão mais autêntica do fatos. O silêncio assusta Macabéa porque nele há a ‘iminência da palavra fatal’, pode desencadear o contato com o mistério e despertar para um modo diferente de existência. Assim como o murmúrio e a reza, o silêncio desloca o homem do esquecimento de si próprio e faz com que viva o ‘oco da alma’. O silêncio provoca a angústia de se descobrir como simples estar-no-mundo, entregue a si mesmo, desamparado da firmeza que o senso comum lhe oferece.”

Além da obra literária, A hora da estrela virou filme, em 1985, dirigido pela Suzana Amaral, com a participação de Fernanda Montenegro (como a cartomante), José Dumont (como Olímpico) e Marcélia Cartaxo (como Macabéa).

Título: A hora da estrela

Autor: Clarice Lispector

Editora: Rocco

Páginas: 87 p.

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Ainda em tempo:

O próximo livro que iremos ler para o #ProjetoMindlin, será Capitães da Areia, do Jorge Amado. Começaremos no dia 06 de fevereiro, próxima segunda feira. Estão todos convidados! Quem quiser participar de modo mais ativo, discutindo sobre a leitura, pode entrar em contato comigo, através do Instagram do blog (por direct), ou diretamente com a idealizadora do projeto, a Nina (Instagram). Mas se quiser participar de modo informal, sinta-se muito convidado também! Utilize a hashtag #ProjetoMindlin para podermos conversar 🙂

Editando dez minutos antes da postagem: A Nina (linda!) postou ainda hoje um vídeo convidando todo mundo para a Leitura de Capitães da Areia! Assista aqui!

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6 comentários sobre “[Resenha] A hora da estrela | Clarice Lispector

  1. Dani, demorei, mas vim ler sua resenha, e que grata surpresa! Adorei o jeito que você escreve, gostei muito da resenha, me trouxe de volta todos os sentimentos que tive ao ler e compartilhar nossas experiências no grupo. Gostei, gostei muito!

    – Lucas Lira, do Mundo do Lira 😀

    • Oi Lucas! Muito obrigada!!
      Estão sendo ótimas essas leituras, né?! A hora da estrela é um livro que leio constantemente, e sempre que releio, encontro algo diferente (e até sinto coisas diferentes).
      Logo já faço uma postagem sobre Capitães da Areia. Estou morrendo de dó de terminar a leitura haha

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