Resenha – Mulheres de Cabul

Oi gente, tudo certo?

Eu já havia lido esse livro há uns quatro anos. Mas resolvi comprá-lo e lê-lo para o Desafio Culto Booktuber, na categoria de Livro de não ficção.

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Mulheres de Cabul (Ediouro, 2006, 128 p.) da fotógrafa Harriet Logan vai nos narrar a realidade de mulheres afegãs, antes e depois da tomada de território pelos Talebans. A autora, em dezembro de 1997 foi convidada por uma revista para ir ao Afeganistão para retratar a nós a realidade do país. Em sua primeira visita já passou alguns apuros somente por querer entrevistar mulheres. Segundo um decreto do Taleban, as mulheres afegãs não podiam conversar ou entrar no carro da reportagem, muito menos tirar fotos (já que a fotografia, para eles, é uma forma de idolatria). Para entrar na casa dessas pessoas, Harriet precisava vestir a burkha – vestimenta típica – para fingir que era do país.

“ALGUNS DECRETOS DO TALEBAN

Pipas são proibidas.

Fotografias e retratos são proibidos. São considerados formas de idolatria e devem ser retirados dos hotéis, estabelecimentos comerciais e veículos.

É proibido rir em público.

Não é permitido às mulheres trabalhar fora do lar ou freqüentar a escola.”

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Em entrevistas feitas com mulheres, em 1997, a fotógrafa consegue relatos de mulheres que antes do regime Taleban tomar conta do país, davam aulas e podiam estudar. Mulheres comuns, que gostavam de artistas populares, bandas populares americanas, que passavam batom, que eram vaidosas, tiveram que deixar de usar maquiagens ou ouvir músicas, pois eram proibidas segundo a lei. Algumas dessas mulheres sob sombra da burkha, nunca deixaram de maquiar-se, nunca deixaram de usar uma roupa mais “ousada” por baixo da vestimenta: para elas, isso era um símbolo de resistência.

Porém, algumas vítimas do regime, não achavam que ele era tão mal assim, como é o caso de Fahrida. Com quatorze anos ela conta que quando tinha sete, saía para brincar com suas amigas. Uma bomba caiu, e além de ela perder sua companhia, ainda ficou aleijada de uma perna. Para ela, a culpa era dos mujahideen (inimigos dos Talebans), que estavam em guerra com o atual regime.

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Em 2001, Harriet voltou a Peshawar e novamente teve um trabalho duro para entrar no Afeganistão. O Taleban já havia caído, porém regras haviam permanecido – na cabeça dos habitantes. A crença de todas as mulheres era que, depois que não fossem mais obrigadas a usá-las, as burkhas iriam “cair“. Mas não foi o que aconteceu. O processo era lento. Os homens não estavam mais acostumados a ver mulheres sem a utilização da vestimenta, e as encaravam, deixando-as com medo e encabuladas. Apesar de toda a cautela, uma coisa ao menos conquistaram: a liberdade de andar novamente sozinhas ou em pequenos grupos.

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Uma das histórias mais emocionantes é da Zargoona. Harriet a entrevistou durante o regime, em 1997, e depois, em 2001. Ela era uma professora de física, e do dia para a noite – ela conta -, os Talebans tomaram conta de tudo. No primeiro momento, todos pensaram que isso seria bom, que eles eram homens bons. Mas no terceiro dia de “posse”, começaram a ditar suas regras. Como professora, Zargoona não podia mais voltar a dar aulas, e mesmo assim não deixou de fazer testes e provas. Quando foi pega, o Taleban ameaçou cortar suas pernas se voltasse à escola. Passado o tempo, passava fome e pensou até mesmo em suicídio.

“Eu não vou nem mesmo a festas de casamento, porque não suporto minha vida. Não tenho esperanças para o futuro; só quero que o Taleban vá embora. Eles não são humanos. Não têm coração, não têm sentimentos. São invejosos, analfabetos e não sabem de nada. Eles são como animais selvagens” (p. 58)

Em 2001, Logan encontrou-se novamente com Zargoona, apesar da difícil tarefa. Ela já havia mudado de residência várias vezes. Agora a mulher estava com câncer e não tinha dinheiro para o tratamento. Relembra de vários momentos tensos vividos com o Taleban, e de como a proibiam de ensinar até mesmo o santo Corão. Segundo eles, nem isso as meninas podiam aprender.

“Na época do Taleban, perdi meu emprego; na época dos mujahideen, perdi meu marido (…). Não tenho família para me amparar – mãe, pai, irmão ou irmã. Só tenho minha tia, e ela é tão pobre que mal consegue se manter. Estou lhe presenteando com isso (uma tiara) porque sei que vou morrer. Não tenho mais nada a dizer”. (p. 60)

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Por mais relatos tristes que este livro contenha, a maioria são relatos de esperança. Muitas mulheres encontram nos filhos a força para conseguir viver e se sustentar. Acreditam que com a queda do Taleban tudo voltará a ser como era antes. Acreditam que a educação irá mudar o modo de pensar dos afegãos. Acreditam principalmente na força que as mulheres afegãs têm. Vemos em seus discursos a tristeza, mas vemos também a força para continuar lutando. Mesmo que tudo seja pó, elas conseguem construir seus castelos.

Título: Mulheres de Cabul

Autora: Harriet Logan

Editora: Geração Editorial / Ediouro

Páginas: 128 p.

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