O gato da Dona Irene

Ela estava sentada com uma gaiola verde ao seu lado. Combinando com a blusa estampada da mesma cor e preto. Usava um coque alto na cabeça, óculos pendurados no pescoço e um saião preto. Era gordinha e tinha um semblante calmo. Uma senhora que iremos chamar de Dona Irene, porque tinha cara desse nome.

O ônibus para São Paulo chegou vinte minutos antes do horário na plataforma, e Dona Irene já se levantou. Ficou na porta do ônibus durante cinco minutos. O ônibus com a porta fechada, e o motorista contando dinheiro e verificando passagens. Passados esses cinco minutos, abriu a porta e avisou à Dona Irene de que sairia da plataforma somente às treze horas, que ela se sentasse e esperasse, para não cansar.

Ela não obediente, permaneceu em pé na porta do ônibus e ficou olhando para seu gato na gaiola. Olhando e conversando. Faltando cinco minutos para a partida, o motorista desceu do ônibus, pegou a passagem da senhora e disse que ela precisava da passagem do gato também. Ela não sabia disso. Subiu até o guichê e foi verificar que coisa era aquela que seu gato tinha que pagar a passagem.

E aí começou o rebuliço: precisava não somente da passagem, mas de um laudo do veterinário de que ele poderia embarcar.

– Como assim? Eu vim de São Paulo e ninguém me pediu isso.

– A senhora veio com o gato de São Paulo?

– Vim, ué. Como eu ia deixá-lo lá no apartamento sozinho?

– Bom, e o motorista que fez esta viagem não pediu nada para a senhora?

– Nada. E ainda veio brincando com meu gatinho.

– Então a senhora aguarde um minuto, por favor.

O ônibus já estava saindo. O relógio já tinha passado das treze horas.

– Mas o senhor não vai me esperar?

– A moça lá do guichê vem conversar com a senhora?

– Conversar? E eu não vou embarcar?

– Sinto muito.

Fechando a porta do ônibus, a senhora foi mudando seu semblante. De calmo para o choro. Aos pouquinhos, foi revelando àquela gente que estava perto dela, como ela era de verdade. Não somente calma, como também sentimental.

– Mas não é justo. Como eu não vou levar  meu gato embora?

Dizia baixinho, falando sozinha, ou com Deus sabe quem.

– A moça disse que eu não posso ir pra São Paulo sem o laudo do veterinário. Não conheço ninguém aqui. Não sou daqui. Como que eu compro uma passagem pro gato?

Sozinha ainda, e choramingando, aquilo começou a afetar o restante das pessoas que estavam ali. Chorava com tanto desgosto, com tanto sentimento, que era quase impossível não contagiar. Um chorinho baixo, de gente idosa. Uma lágrima doce, de gente sozinha.

– Senhora, deixa eu explicar uma coisa? – Disse alto a moça do guichê.

– Mas moça, como eu não vou levar meu gato?

– Deixa eu explicar pra senhora. A senhora não pode se desesperar, se não eu vou desesperar também, tá? A empresa que cuida disso, dos transportes, é muito rigorosa… Eles não deixam levar um animal dentro do ônibus, se não estiver com passagem. E para comprar a passagem, a senhora vai precisar de um laudo do veterinário, dizendo que ele não está doente, que ele pode viajar também com a senhora.

– Mas como eu vim de São Paulo até aqui com o gato? Porque ninguém me pediu isso?

– Foi erro deles. Mas agora a gente tem que fazer o certo. A senhora vai ter que arrumar um veterinário rapidinho, porque assim conseguimos te colocar no próximo horário.

– Rapidinho? Eu não conheço nenhum veterinário aqui.

– Eu vou conseguir para a senhora, ok? Nem que seja um gratuito. Um que não vá cobrar nada da senhora. Pode ser?

– Pode… – Já se debulhando novamente em lágrimas.

– Então fica aqui. Não saia daqui. Eu já volto.

E foi. E Dona Irene seguiu chorando. Seguiu pensando em seu gato. E seguiu seu dia. E ficou sozinha de novo.

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