Sobre a saudade

Estou lendo Mário Quintana. Relendo, pra ser exata. Mas sinto que nunca li a cada vez que pego para ler. Sempre tem uma surpresinha nova, sabe?! Daquelas do estilo O pequeno príncipe. Algo que da segunda vez que olhamos, juramos de pés juntos que da primeira, não estava ali. E assim devem ser os livros de poesia. E assim devem ser os poetas. Sempre arrancando arrepios e suspiros novos, a cada instante.

Ao ver hoje duas frases poéticas que a Chiado Editora colocou em seu Facebook, lembrei-me de uma situação que aconteceu há muitos anos, comigo e meu irmão.

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Era um dia azul. Daqueles bem azuis, com cara de domingo. E sim, era domingo. Naquele lugar havia crianças, velhos, adultos, famílias inteiras, cachorros, e uma barulheira danada. Todos estavam animados em estar naquele lugar tão remoto. Ilha de Paquetá. Há pouco estavam também correndo e brincando como os outros visitantes da ilha. Havia um carrinho que todos queriam andar e dirigir. Havia um farol que todos visitavam. E havia acima de tudo naquele lugar, algo que era invisível. Uma poesia do tamanho do mundo. Uma poesia que não cabia dentro da ilha de tão grande que era. Atravessava o mar, atravessava os céus, atravessava a imensidão daquele dia azul.

– Você já sentiu saudade do que ainda não viu?

– Sim. – respondeu a garota, levando susto. – Pensei que era só eu que sentia isso.

– Não. Eu sinto saudade de coisas que nunca aconteceram, e de pessoas que nunca vi.

– Também sinto isso. E sinto amor por elas.

Ali, sentados naquela pedra, esperando a lancha vir buscá-los, filosofavam  sobre a vida. E pasmem – eram duas crianças. Crianças no sentido puro e verdadeiro da palavra. Tinham 12 e 13 anos. Não eram pré-adolescentes. Eram pequerruchos. Não sabiam nada da vida nem do amor. E estavam ali, falando com autoridade sobre os dois. Não imaginavam que estavam falando coisas que poetas registraram.

– Do que você sente saudades?

– De uma pessoa que nunca vi.

– E como é essa saudade?

– É uma coisa que dói tanto, aqui dentro, que eu não sei explicar. E mesmo assim eu sei que essa pessoa também sente saudades de mim. E com você?

– Também é assim.

E os dois puseram-se a chorar baixinho. O primo arteiro estava junto naquela viagem, mas estava mais atrás. Talvez naquela época, ele não entendesse o que estava se passando.

Os dois se abraçaram. E viram o lindo pôr do sol.

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Foto de Búzios, e não da Ilha de Paquetá. A foto foi tirada um dia depois do diálogo.

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